 RECENSÕES
Este fórum de
recensões, que pretende lançar um debate sobre literatura, teatro e
filme, está aberto às contribuições de todos os interessados.
Perdido em
Pretensões
Recensão do livro de Maria Manuel Stocker, Jerónimo Pimentel,
Sei quem ele é ... Biografias não autorizadas de grandes
personalidades da cultura mundial, Cruz Quebrada – Dafundo
Oficina do Livro 2005.
Segundo o texto inserido nas badanas da capa do
livro, o objectivo desta publicação é captar aqueles leitores que
gostariam “de impressionar os outros com a sua erudição”. Com esse
fim, e para “poder falar em sociedade sobre temas mais estimulantes do
que doenças, crianças, automóveis, férias ou intrigas no seu emprego”
os autores apresentam trinta ensaios curtos intitulados “biografias de
figuras ilustres”, de Sócrates (não o primeiro ministro, mas o
filósofo) a Michel Foucault. Já no índice se percebe, com alguma
apreensão, que entre eles constam muitos escritores como, por exemplo,
Goethe, Dostoiesvki [sic], Flaubert, Carroll, Woolf e Kafka.
Não quero questionar o mérito deste projecto que pretende fornecer
mais material para o small talk da cultura do parecer,
possibilitando assim, um discurso sobre obras sem as ter lido. Pelo
menos, esta iniciativa implica que o grupo alvo tenha a necessidade de
mostrar alguma “erudição” neste campo. “Pode sempre dizer que leu A
Metamorfose na juventude e que gostava de voltar a ler, já que não
tem dúvidas de que a obra de Kafka dá prazeres novos a cada idade. Se
quer parecer que sabe mais, diga que o mais fascinante no conjunto de
Kafka foi a repetição dos retratos ou figuras de pessoas com a cabeça
descaída, derrotada.” (Stocker / Pimentel: 111)
Todavia, mesmo para uma publicação
com um nível confessamente baixo, existem exigências mínimas, para
prevenir as pessoas que querem impressionar os outros com a sua
erudição, não ficarem ainda mais ridículas do que as suas pretensões
que têm. Basta examinar a biografia de Goethe, cujo título “Um homem
do Romântico” não é estranho aos leitores do Público, no qual o
artigo já apareceu em 02/08/2004, prometendo “o essencial para não
ficar mal numa tertúlia intelectual”.
Desde então, os autores não aprenderam quase nada
– as poucas alterações feitas na versão do livro, não eliminam os
erros essenciais (pelo menos o monstro ortográfico “Ungeheur”, o seja
“Ungehuer” ficou pelo caminho)
Goethe tinha mais
irmãos do que os autores indicam e nunca se casou “com a namorada de
um amigo, de nome Charlotte”. É incorrecto na perspectiva da história
literária, chamar-lhe “homem do Romântico”. Até teria sido um insulto
ao próprio Goethe, que achava o Romantismo doentio. Os autores alegam
também a sua “adesão aos ideais da Revolução Francesa”, contradizendo
novamente as afirmações do poeta perante Eckermann, no sentido de que
nunca simpatizou com ela. Não convém tentar convencer o leitor a
“aprender de cor, em alemão” quando o poema citado revela erros que
alteram o significado (warst / wärst). Só mais um: Trauerspiel
(drama lutuoso) não “quer dizer qualquer coisa como ‘drama barroco’”
mas significa simplesmente tragédia.
Sabemos agora porque o
livro Sei quem ele é … Biografias não autorizadas de grandes
personalidades da cultura mundial contém biografias não
autorizadas. Se a publicação é Trauerspiel ou paródia, só Maria
Manuel Stocker e Jerónimo Pimentel podem dizer, mas depois da sua
leitura ninguém saberá, quem “ele” realmente é. Será que interessa?
Gerald Bär, 11/10/2005
Carlos Ceia, O Professor Sentado: Um
Romance Académico, Lisboa, Edições Duarte Reis, 2004,
pp. 197. (ISBN: 972-8745-12-5)
O Professor Sentado, trazido a lume pelas Edições Duarte Reis
em Setembro de 2004, é o primeiro romance de Carlos Ceia e é também,
segundo se alega adentro do texto ficcional, o primeiro romance
português que se auto‑apelida em subtítulo de Um Romance Académico.
Não é, como o próprio narrador autoral admite, o primeiro romance
académico português, apontando‑se dentro do texto, desde logo, no
âmbito deste género, em Portugal, a existência de dois trabalhos de
Frederico Lourenço (referência óbvia a Pode um Desejo Imenso e
O Curso das Estrelas, publicados pela editora Cotovia em 2002),
sendo que a estes poderíamos acrescentar, como precursor, o romance O
Jardim das Plantas, da autoria do Professor de Agronomia Luís
S. Campos (Ed. Autor, 1994). Mas não sendo O Professor Sentado
o primeiro romance académico português, também não deixa de ser, a
partir de Portugal, o seguimento que a tradição do romance académico
britânico não teve, ou deixou de ter à medida que os seus autores
“maiores, Malcolm Bradbury e David Lodge, derivaram para narrativas
mais facilmente enquadráveis noutros subgéneros ou modos de escrita.
De facto, não só o narrador se confessa de modo explícito “sob a
influência e completamente intoxicado pelo romance académico
britânico” (p. 159), como pede ao leitor que“reconheça ainda que o
tema da viagem do scholar também faz parte integrante desta
história, o que a ajudará a ser inscrita na outra história do género
literário em questão” (ibidem). E conclui de modo incisivo:“Académico que não viaje não tem identidade” (ibidem).
E
O Professor Sentado, de Carlos Ceia, viaja, talvez como nenhum
outro. Viaja, em primeiro lugar, entre o meio cultural britânico e o
português. Viaja não só pela ansiedade (bloomiana) da influência,
como principalmente por algo a que poderíamos chamar a ansiedade da
irrelevância, que é a ameaça mais constante pendendo sobre o académico
na área das ciências sociais e humanas, como vários vectores de
desenvolvimento da obra recorrentemente denunciam, em sentidos
diversos. Neste exercício extremo de experimentalismo literário
poucas estratégias podem ser novas. A inserção, a páginas trinta e
três - trinta e quatro, do autor real Carlos Ceia em diálogo com a sua
própria personagem Augusto Chagas repercute efeitos surpresa já
tentados no romance português, como aconteceu, por exemplo, em Que
Pena Ela não se Chamar Maria, de Regina Louro (Relógio d’Água,
1985). Mesmo a feição mais evidente de desdobramento de obra e autor
numa multiplicação de alter‑obras e alter‑egos autorais, que permite a
Carlos Ceia tornar‑se, adentro do universo textual que cria, no seu
próprio crítico, não é mais do que a apoteose polifónica de
estratégias que já foram postas em prática, com mais moderação, por
autores do mundo literário anglo‑americano, como Nabokov, por exemplo,
fez em Pale Fire. No entanto, nenhuma linha de texto surge
como gratuita, antes o romance se desenvolve linha a linha, sobre o
eixo da procura de uma forma crescentemente complexa para dar conta de
uma realidade académica (em grande parte, mental) também ela de
complexidade crescente - e de utilidade questionável, porque sem um
objectivo que autorize a ideia de uma redenção possível: daí a opção
pelo pendor lúdico, tongue‑in‑cheek, constantemente assumido
pela perspectiva da narração, daí o próprio lado de diversão ou de
intriga “palaciana” na nomeação das personagens, com Conceições que
talvez se pudessem, ou não, chamar Claras, e Mancebos que quiçá
responderiam por Macedos. Não nos deixemos, no entanto, enganar pela
vertente de exercício intelectual jocoso desta narrativa. Importa,
por um lado, retirar este texto do domínio daquilo a que podíamos
chamar um certo “paroquialismo” da Universidade portuguesa (patente
ainda, por exemplo, no romance de Luís S. Campos) e inscrevê‑lo no
cânone de uma, por assim dizer, literatura global que sobrevoa
virtualmente a Europa e os EUA, fruto, ela mesma, de uma cultura
universitária também cada vez mais global, e a partir da qual o centro
(anglo‑americano) pode vir a ser renovado, revivificado pelas suas
margens (de que a lusofonia faz parte). Ou antes, poderia, não fosse
o facto de um romance escrito em português, para encontrar
destinatários nos centros culturais do mundo ocidental, precisar ainda
de tradução. Por outro lado, é este um texto em que Carlos Ceia
profusamente mente para melhor conseguir chegar à verdade. Atesta‑o a
inverosimilhança expressionista dos diálogos, frequentemente
impossíveis de admitir em qualquer universidade real das que
conhecemos, mas não obstante portadores do que os académicos diriam
uns aos outros se pudessem (“Não estamos aqui só para elogiar. O
candidato revelou muitas fragilidades...” – diz a arguente de um júri
de uma dissertação de mestrado, a que a personagem Augusto Chagas
responde “Mas não tantas como as que a senhora professora revelou
sobre a poesia de Álvaro Feijó, de quem não soube apreciar um único
verso” [p. 65]). A desfaçatez quase onírica de muitas passagens
consente também uma chamada de atenção para as potencialidades da
ficção como modo exploratório dos significados do real concreto: no
meio da imensidade de resmas de papel impresso com dados supostamente
objectivos sobre a realidade e as condicionantes do meio universitário
português, é bem possível que O Professor Sentado, de Carlos
Ceia, investigado e produzido no clima de liberdade que só a ficção
permite, se destaque como provavelmente o melhor exercício de
auto‑conhecimento surgido na Universidade portuguesa do presente, na
área das Humanidades.
Maria Filipa Palma dos Reis,
18/07/2005
Professora Auxiliar de Nomeação
Definitiva, Universidade Aberta
(autora de
A Universidade nos Finais do Século XX: Autovisões e Alterovisões
da Universidade – O Romance Académico como Documento Cultural,
Lisboa, Universitária Editora, 2001, pp. 395)
Recensões e/ou Comentários:
e-mail:
ceaa@univ-ab.pt
© Universidade Aberta 2003
Produzido por SPMST
- UMTE
- UAb l Actualizado em 11 de Outubro de 2005
|